quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

DIA UM

Sento-me irrequietamente, ao dia 20 de novembro do ano de 2007, à mesa da sala principal de casa e me ponho a ruminar os pensamentos que há tanto vêm povoado o meu crânio cansado.Com as janelas fechadas, as portas fechadas e o costume de aproximar as coisas externas a tudo o que eu sou, penso que a sala onde me encontro parece ser uma extensão de mim e uma adjacência de minhas necessidades sufocadas. Escrevo. E hoje tenho saudade de tudo: saudade que tudo comprime, que tudo contrai, retrai e implode. Chego a pensar que se fosse poeta diria que em meu peito, que agora oscila suavemente enquanto inspiro e expiro o ar desse recinto, marcando o compasso aparentemente tranqüilo de minha respiração, habita um buraco negro que tudo devora.

Abro a janela que se põe à minha frente. Tal foi a forma que a fiz escancarada, que se fosse pessoa seria uma cortesã sorridente, ou alguém que se rasga nos trâmites delirantes de loucura. Há em mim hoje mais que observação ou leitura. Mais que a minha sinfonia diária de metodismos e salguras, mais que meu acordar robótico, meu sorrir estático, meu pensar calado, meu amar programado, meu estudo frenético, meu horário neurótico. Há hoje necessidade de expandir, distender e explodir em mil partes que se desgarram dolorosamente umas das outras, assim como quem arranca um pedaço de si e doa pro mundo. Estilhaçar como mil cacos de estrelas incandescentes distantes, que, como anjos decaídos, repousam silenciosas e revoltas em cada recôndito de minh´alma. Eu estou hoje aqui e nos milhares de pontos secretos dos desertos da Califórnia.

Entraram na sala, reclamaram do frio, fecharam a janela. Eu disse que não, e abri. Senti que violaram meu regaço.Me aborreci. O telefone tocou e eu atendi com a mesma curiosidade com que, depois, colhia a ouvi-lo. Sinto a cada fala um suprimir e me encanta a possibilidade de talvez ser o único a desvendar um dito não existente segredo em sua não-palavra...afinal cada riso é uma oclusão e cada grandeza esconde uma infinidade de pequenos detalhes. Desligo pensando que é um indivíduo obtuso, assim como eu. E é, com certeza.

Volto à mesa e permaneço a fitar a folha em branco cujo outro lado eu escrevia. Quase não sinto mais nada salvo por um fio tênue que ainda me prende ao que já se esvai. E volta. Porque em mim as coisas não têm fim. São uma oscilação eterna entre o que foram, o que são e o que eu ainda pretendo, inconsciente, que elas sejam- posto que cada existência que há em mim deságua em outra e se reinventa num tremendo esforço de Ser, estar e permanecer vivo.Sinto-me hoje, compelido pelo destino, a não findar a hermética minha linha, ou o frenesi do meu pensamento que eu engoli e que ainda sinto queimar nas minhas entranhas. Amanhã ou depois aposto que regurgito. E assim poderei parir minha idéia como punhados de pontos luminosos, expandidos, abertos, diversos e novamente me sentir legítimo. Multiplicar-se alivia o fardo , o parto e a doença de ser unidade.
Stay Beautiful,
Riccio

10 comentários:

Lady Desdém disse...

Eu acho que o que faz o texto de uma pessoa se tornar interessante, legível e realmente bom não é o fato de a cada linha ter uma frase perfeita uma conjunção maravihosa... mas sim o fato de no momento certo no local exato escrever a frase de impacto "que se fosse pessoa seria uma cortesã sorridente" [por ex.]
Vei essa frase eh muito perfeita.
O texto eh lindu! por vários motivos, primeiro pela sinceridade, segundo por vc conseguir mostrar de sua raiva ao seu amor nele e isso eh maravilhoso. Sua forma de escrever eh bem, BEM diferente da minha, o que como te disse aquele dia, não me impede de gostar bastante!
Poste com mais frequencia pequenininha! :)rs
:**

Anônimo disse...

"a arte de escrever"
by arthur wolverine engrandeceu bastante seu texto, pguiminha! A retórica formalista foi mantida, mas a roupagem e o estilo ganharam um up violento.

keep up the fuckin good work! Thumbs up! (Y)

Unknown disse...

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

''BAAAHHHHH'' ^^

Unknown disse...

O quanto eu te falei que isso vai mudar
Motivo eu nunca dei...
Você me avisar, me ensinar,
falar do que foi pra você, não vai me livrar de viver!

Quem é mais sentimental que eu?!
Eu disse e nem assim se pôde evitar...

De tanto eu te falar, você subverteu
o que era um sentimento e assim fez dele razão...
pra se perder no abismo que é pensar e sentir

Ela é mais sentimental que eu!
Então fica bem...
...se eu sofro um pouco mais...

"Se ela te fala assim, com tantos rodeios,
é pra te seduzir
e te ver buscando o sentido
daquilo que você ouviria displicentemente.
Se ela te fosse direta, você a rejeitaria."


Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.

Unknown disse...

Eu encontrei-a quando não quis
mais procurar o meu amor
e o quanto levou foi pra eu merecer
antes um mês e eu já não sei
e até quem me vê lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei

e ninguem dirá
que é tarde demais
que é tão diferente assim
do nosso amor
a gente é que sabe pequena
ahh vaii

me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o caso for de ir a praia
eu levo essa casa numa sacola..

eu encontrei-a e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser
você me falou
pra eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
e só de te ver
eu penso em trocar
a minha tv num jeito de te levar
a qualquer lugar
que voce queira
e ir onde o vento for
que pra nos dois
sair de casa ja é
se aventurar
ahh vaii

me diz o que é o sossego que eu te mostro alguem
afim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra te acompanhar

Riccio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O GARRA disse...

Caralho n sabia q Wolverine escrevia...eu aprendo muita coisa nesse negócio de blog, quase concordei com Carol de novo.

O GARRA disse...

"eu sou a mosca, qu epertuba o seu sono, eu sou a mosca q voltou pra te abusar..."

Unknown disse...

Ei Stephanie, massa os textos aí, novidade pra mim, sabia que escrevias bem, mas não tanto, parabéns, saudade aí de vc tefinha, apareça, um beijo, sucesso.

Aninha :] disse...

ah, meu irmão me apresentou seu blog por aqui.
vi e gostei. por enquanto, só li esse texto. mas como gostei, pretendo ler mais :]