De tudo que houve em mim
De tudo que esteve em mim
De tudo o que me forma, me cria, me cresce
De tudo o que compõe meu desalento, desencanto
De tudo quanto combustível pro meu grito
De tudo quanto pouco canto pro meu canto,
Eu parti, e nada mais me resta.
E sigo em vôo desatento, desolado
A cada passo há o peito aberto, descampado
E o pesar do olho insone, alerta, alado
E do sonho calado,viciado a olhar o chão.
E por me ver talvez tão pouco comparado ao que eu vejo
E por me ser assim tão rouco ao pé do brio de meu desejo
Engulo meu parto, adormeço meu urro, adoeço a minha idéia
Adoeço meu corpo, me vejo inteiro em pedaços
Me arrebento, me rebato, me desfaço
Me derreto, me dissolvo, me desgraço
Contemplo a graça e a beleza da desconstrução.
Mas se de tudo que me restar da passagem
De tudo que me sobrar da mudança for minha asa raquítica
Meu sorriso ligeiro
O calor vazio de Fevereiro
E meu olhar cheio de futuro e lágrima
Eu amarei o céu, a lua e as estrelas
O tempo, a distância, a saudade
A carne, o músculo, o sangue
E o que há de mais etéreo,em pensamento.
Pois se sobrar de mim
O mínimo do pouco que eu sou
Eu amo.
E abraço a lembrança
E afago a memória
E converso com o eco
E me deito com a ausência e beijo-lhe a face
E ofereço-lhe minha mão e lhe empresto meu riso
E me caso com a idéia.
Porque de tudo aquilo quanto sobra quando me estilhaço
Ainda me sou,ainda te faço
Viver , silenciosamente,dentro,em mim.