quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A MÃO E O CIMENTO


Era um sábado, não sei que horas de não sei que mês
E havia um buraco no seu quintal
Sua mãe, uma caboclinha de um metro e cinquenta e três, no máximo
Há muito era incomodada com aquilo e só naquele sábado de não sei quando
Resolveu cimentá-lo.

Ajoelhou-se no chão com seus joelhinhos ágeis
E numa proporção exata de cimento, água e terra, fez a massa
Cobriu o buraco, delicadamente estabanada, levantou-se e sorriu.

Foi aí então que eu disse: "Eu nunca deixei marca nenhuma em cimento"
E ela, dócil e macia me perguntou se eu não queria fazê-lo agora
Eu disse que sim, fingindo inocência.

Mas foi tudo planejado, você não sabe
Eu disse o que disse pois sabia que ela ia me fazer a proposta
E o que eu mais queria naquele momento era aceitar
Porque eu sabia que iria embora
Eu sabia que iria embora logo
E queria deixar algo meu pra que você sentisse o que eu senti.

Eu deixei no chão do seu quintal, a marca de mim que eu não sei se deixei na sua vida
E toda vez que você for em casa, a minha mão vai estar lá
A marca da minha mão, a marca do que um dia foi minha presença
E você vai se lembrar de mim mesmo que não queira.

Eu na época fiz pra que doesse.
Hoje eu acho que nem sei mais...







PRIMAVERA EM CONQUISTA

Primavera em Conquista sempre me fez refletir. Nesses três anos de estadia pela cidade, eu consegui ver quase todas as vezes como, nessa época, ela se enche de brilho e calor e como parece ser uma cidade viva. Conquista tem o pôr-do-Sol mais bonito da Bahia. Minto. Perde para o pôr-do-Sol de Salvador, no solar do Unhão, um dos poucos lugares do Brasil em que o Sol se põe no mar.

Digo isso, mas eu mesma nunca fui lá no por do sol. Digo porque ouvi dizer, e de fonte segura, então acredito. Mas os meus dois olhos, os dois olhos que estão presos há vinte e um anos na minha cara, nunca viu um Sol se por de uma forma tão garbosa do que nesse semi-sertão.

Eu acho que gosto mesmo daqui. É uma cidade que guarda o charme das cidades frias e fora pra mim, quando cheguei, o signo de mil possibilidades. Ninguém me conhecia, eu poderia ser quem eu quisesse, poderia inventar passados de agruras e emoções, poderia contar histórias de loucuras e coragens, poderia crer no personagem que eu poderia inventar e aí, então, ousar mais, ser um tanto mais altiva e fingir ter segurança. Mas acabei optando por continuar. E segui da minha maneira atenta, curiosa e retraída, às vezes arredia com a vida, nas outras,de uma docilidade quase canina pelas coisas e pelas pessoas. Acho que eu sempre fui assim: os olhos grandes e uma veia aberta.

Essa cidade me abriu as veias. E eu pude forçar até o limite a minha crença, as minhas antigas convicções, a minha fé nas coisas, a minha fé nas pessoas, naquilo que eu era e vinha me tornando. Eu me testei, me reprovei, fiz uma escola de minha vida num esforço em estar, num esforço em pertencer, num esforço em ser o que eu pensei que podia, o que eu pensei que queria, o que eu pensei. Hoje, eu simplesmente não penso mais. Pensar não é pra mim. Pensar não é pra ninguém. Pensar é um esforço – não raro em vão- em transformar em concretude a substância do que se idealiza. E a realidade, assim como a morte, encerra toda Possibilidade. E se de um lado ela jamais pode ultrapassar o sonho em excelência e grandiosidade, do outro, o que é idealizado jamais descerá ao perecível. Nega-se a fazer isso. Então eu me nego a pensar e ficamos quites, eu e o Universo.

E foi assim, com a simplicidade dos ignorantes à tudo, que um dia eu sem muito porquê gostei de Estar. Só a pouco eu deixei de questionar a beleza dessas ruas retas. Vai ver que foi por isso que ela me sorriu, assim, amorosa. E me mostrou o Sol carinhoso lambendo as suas árvores agora florindo, e o céu se abrindo misterioso em róseos e anis às três da tarde e o vento gelado e inocente passando por entre as minhas pernas cobertas por minha saia simplezinha de xinil. E eu no meio da cidade, no meio da rua, embasbacada com o espetáculo que se põe secretamente diante dos meus olhos: ninguém parece ver o que eu vejo. O que eu vejo parece ser presente só para o meu espírito porque as pessoas passam alheias a essas maravilhas nos seus automóveis e se riem de mim se me vêem no estado em que ando, sempre observando. Eu ando devagar e meio torta, eu pendo para a direita por conta do braço que quebrei há muito tempo, ainda menina, me causando um desvio breve e nada grave na coluna. Eu ando devagar e com a boca aberta, potrinha risonha do passinho curto ouvindo blues.

Conquista é uma cidade de planícies, presente e futuro. Não lhes tenho amor porque nela não tenho passado: não tenho lembranças de domingos em família, de meu pai dedicado, de minha mãe amorosa, de meus avós preocupados... não tenho paixões que recorde. Não tenho estrelas-de-davi suspensas no meu peito, não tenho minhas mãos cravadas no cimento fresco do fundo de quintais como a maneira mais eficaz que eu encontrei de me perpertuar na vida de quem amei pois sabia que eu ia embora.

Não lhes tenho ódio, porque nela ficarei por pouco tempo, não lhes tenho ódio porque Ela me deu seu por-do-Sol. Minha quase-simpatia é fruto de um exercício constante de esforço e determinação de querer ver nas ruas retas e nas pessoas distantes, uma faísca de alguma coisa que se pareça como minha. Gosto das coisas que me pego imaginando abraçá-las. Conquista é ''inabraçável", é silenciosa e arredia comigo, ela testa todo dia minha resistência à dor, minha resistência à saudade, minha resistência à memória e quando não me reprova é gentil comigo e coloca o tempo do jeito que eu gosto. E nessas vezes, é bom.

Nessas vezes, eu saio e ensaio risos para pessoas estranhas em cafés. Nessas vezes eu me sinto mulher, eu sinto ter uma alma de um metro e oitenta e seis, e eu sou forte nessas horas, muito forte, e converso pouco e sustento esse ar que sustentam as pessoas que se bastam. Nas outras, sobram os pés sem saber pra onde ir, uma solidãozinha doída feito nem sei o quê e essa cara de desamparo, de fragilidade, de vontade de ser encontrado.


E o resto eu sei lá ... talvez eu viva bem assim, talvez não. Não tenho pressa em descobrir. Hoje eu só sou feliz.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

FIAT LUX


O pensamento em Chico Buarque

O ouvido na Carta Rogatória

A idéia na delícia do delírio lunático

O corpo cansado na rotina psicótica

A mente no encalço de realidades cósmicas

O coração incauto de frágeis justiças tétricas


E quem sou eu diante disso tudo?



Dá-me luz, Pai, ô meu pai

Que eu quero enxergar

Me dá luz.

sábado, 10 de abril de 2010

PERFEIÇÃO


"(...)Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão."







sexta-feira, 2 de abril de 2010

AO MEU LIVRO PERDIDO



As Palavras Andantes andaram de mim
Rumo a um não-sei-onde em que não estou

E eu me pergunto que mal as fiz
Pra merecer a violência desse abandono inexplicável
Esse estado de ausência
Entre a fuga e o arranque.

Eu nem as vi partir.

E achei isso uma traição
Esse sair silencioso, esse abandonar de sorrate,
Essa quase incoerência em saber-se palavra
E de não ter me dito nada
Quando, de mim, foi embora.


Às vezes, penso que tudo que é bom me escapa
E sobra em mim só esse gosto amargo
Esse gosto ocre
Essa saudade
Esse mesmo sentir doente de merda
Que eu mudo
Que eu mudo
Que eu mudo


Que nunca muda de mim.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O ÁCIS DE AJU

Nasce o dia com a beleza de manhã raiada,
Vem o Sol e alumia a terra fecunda,
E cede à noite, essa dama escura e funda,
O céu que, bem mais tarde, é madrugada.

Em noite alta, o meu bem, em sonho, surge,
É uma sílfide, é um silfo, um proscrito
Que meu Amor malfeitor tornou conscrito
Por meu querer traiçoeiro foi alçado.

Mas a doçura do Amor que tem me dado
E a candura do Olhar que tem cedido
De bom grado, ainda que advertido
Do meu toque mau de Midas contrariado
Tem à mim, coberto os dias de ternura
Tem de mim roubado noites acordado
Tem por mim zelado mais do que zelado
Eu mesma, pelo fim de minha salgura

E por deixar em mim tua fala grave e pura
E por ter por mim sentir suave,ameno
Temo o olhar enciumado de Polifemo
O ciclope gigante de Janeiro
Mas haverás de resistir ao amor sombrio
Morrendo, sendo revivido em rio
E levantando-se ao calor de Fevereiro.



Dezembro de 2009.

ARLEQUIM



Nos olhos teus, qual se esconde o segredo
Que aumenta a tua servil doçura nua
Quem te pôs assim tão belo e frágil, filho da lua
E tão negro e fatal aos meus versos?

Que água turva bebeu-lhe à boca
Afogando minhas certezas obscuras
Quem te esculpiu assim tão bela arte crua
E tão gélida quanto solitário , o meu sepulcro?

Se soubésseis quão puro sois, quão puro o carma
Trazes em tamanha perfeição, outrora somente tua
Que de palavra e gesto e cor e som , situa
A tua eterna presença-ausência em todo espaço.













Agosto de 2005.