sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O ÁCIS DE AJU

Nasce o dia com a beleza de manhã raiada,
Vem o Sol e alumia a terra fecunda,
E cede à noite, essa dama escura e funda,
O céu que, bem mais tarde, é madrugada.

Em noite alta, o meu bem, em sonho, surge,
É uma sílfide, é um silfo, um proscrito
Que meu Amor malfeitor tornou conscrito
Por meu querer traiçoeiro foi alçado.

Mas a doçura do Amor que tem me dado
E a candura do Olhar que tem cedido
De bom grado, ainda que advertido
Do meu toque mau de Midas contrariado
Tem à mim, coberto os dias de ternura
Tem de mim roubado noites acordado
Tem por mim zelado mais do que zelado
Eu mesma, pelo fim de minha salgura

E por deixar em mim tua fala grave e pura
E por ter por mim sentir suave,ameno
Temo o olhar enciumado de Polifemo
O ciclope gigante de Janeiro
Mas haverás de resistir ao amor sombrio
Morrendo, sendo revivido em rio
E levantando-se ao calor de Fevereiro.



Dezembro de 2009.

ARLEQUIM



Nos olhos teus, qual se esconde o segredo
Que aumenta a tua servil doçura nua
Quem te pôs assim tão belo e frágil, filho da lua
E tão negro e fatal aos meus versos?

Que água turva bebeu-lhe à boca
Afogando minhas certezas obscuras
Quem te esculpiu assim tão bela arte crua
E tão gélida quanto solitário , o meu sepulcro?

Se soubésseis quão puro sois, quão puro o carma
Trazes em tamanha perfeição, outrora somente tua
Que de palavra e gesto e cor e som , situa
A tua eterna presença-ausência em todo espaço.













Agosto de 2005.