quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A MÃO E O CIMENTO


Era um sábado, não sei que horas de não sei que mês
E havia um buraco no seu quintal
Sua mãe, uma caboclinha de um metro e cinquenta e três, no máximo
Há muito era incomodada com aquilo e só naquele sábado de não sei quando
Resolveu cimentá-lo.

Ajoelhou-se no chão com seus joelhinhos ágeis
E numa proporção exata de cimento, água e terra, fez a massa
Cobriu o buraco, delicadamente estabanada, levantou-se e sorriu.

Foi aí então que eu disse: "Eu nunca deixei marca nenhuma em cimento"
E ela, dócil e macia me perguntou se eu não queria fazê-lo agora
Eu disse que sim, fingindo inocência.

Mas foi tudo planejado, você não sabe
Eu disse o que disse pois sabia que ela ia me fazer a proposta
E o que eu mais queria naquele momento era aceitar
Porque eu sabia que iria embora
Eu sabia que iria embora logo
E queria deixar algo meu pra que você sentisse o que eu senti.

Eu deixei no chão do seu quintal, a marca de mim que eu não sei se deixei na sua vida
E toda vez que você for em casa, a minha mão vai estar lá
A marca da minha mão, a marca do que um dia foi minha presença
E você vai se lembrar de mim mesmo que não queira.

Eu na época fiz pra que doesse.
Hoje eu acho que nem sei mais...







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