Primavera em Conquista sempre me fez refletir. Nesses três anos de estadia pela cidade, eu consegui ver quase todas as vezes como, nessa época, ela se enche de brilho e calor e como parece ser uma cidade viva. Conquista tem o pôr-do-Sol mais bonito da Bahia. Minto. Perde para o pôr-do-Sol de Salvador, no solar do Unhão, um dos poucos lugares do Brasil em que o Sol se põe no mar.
Digo isso, mas eu mesma nunca fui lá no por do sol. Digo porque ouvi dizer, e de fonte segura, então acredito. Mas os meus dois olhos, os dois olhos que estão presos há vinte e um anos na minha cara, nunca viu um Sol se por de uma forma tão garbosa do que nesse semi-sertão.
Eu acho que gosto mesmo daqui. É uma cidade que guarda o charme das cidades frias e fora pra mim, quando cheguei, o signo de mil possibilidades. Ninguém me conhecia, eu poderia ser quem eu quisesse, poderia inventar passados de agruras e emoções, poderia contar histórias de loucuras e coragens, poderia crer no personagem que eu poderia inventar e aí, então, ousar mais, ser um tanto mais altiva e fingir ter segurança. Mas acabei optando por continuar. E segui da minha maneira atenta, curiosa e retraída, às vezes arredia com a vida, nas outras,de uma docilidade quase canina pelas coisas e pelas pessoas. Acho que eu sempre fui assim: os olhos grandes e uma veia aberta.
Essa cidade me abriu as veias. E eu pude forçar até o limite a minha crença, as minhas antigas convicções, a minha fé nas coisas, a minha fé nas pessoas, naquilo que eu era e vinha me tornando. Eu me testei, me reprovei, fiz uma escola de minha vida num esforço em estar, num esforço em pertencer, num esforço em ser o que eu pensei que podia, o que eu pensei que queria, o que eu pensei. Hoje, eu simplesmente não penso mais. Pensar não é pra mim. Pensar não é pra ninguém. Pensar é um esforço – não raro em vão- em transformar em concretude a substância do que se idealiza. E a realidade, assim como a morte, encerra toda Possibilidade. E se de um lado ela jamais pode ultrapassar o sonho em excelência e grandiosidade, do outro, o que é idealizado jamais descerá ao perecível. Nega-se a fazer isso. Então eu me nego a pensar e ficamos quites, eu e o Universo.
E foi assim, com a simplicidade dos ignorantes à tudo, que um dia eu sem muito porquê gostei de Estar. Só a pouco eu deixei de questionar a beleza dessas ruas retas. Vai ver que foi por isso que ela me sorriu, assim, amorosa. E me mostrou o Sol carinhoso lambendo as suas árvores agora florindo, e o céu se abrindo misterioso em róseos e anis às três da tarde e o vento gelado e inocente passando por entre as minhas pernas cobertas por minha saia simplezinha de xinil. E eu no meio da cidade, no meio da rua, embasbacada com o espetáculo que se põe secretamente diante dos meus olhos: ninguém parece ver o que eu vejo. O que eu vejo parece ser presente só para o meu espírito porque as pessoas passam alheias a essas maravilhas nos seus automóveis e se riem de mim se me vêem no estado em que ando, sempre observando. Eu ando devagar e meio torta, eu pendo para a direita por conta do braço que quebrei há muito tempo, ainda menina, me causando um desvio breve e nada grave na coluna. Eu ando devagar e com a boca aberta, potrinha risonha do passinho curto ouvindo blues.
Conquista é uma cidade de planícies, presente e futuro. Não lhes tenho amor porque nela não tenho passado: não tenho lembranças de domingos em família, de meu pai dedicado, de minha mãe amorosa, de meus avós preocupados... não tenho paixões que recorde. Não tenho estrelas-de-davi suspensas no meu peito, não tenho minhas mãos cravadas no cimento fresco do fundo de quintais como a maneira mais eficaz que eu encontrei de me perpertuar na vida de quem amei pois sabia que eu ia embora.
Não lhes tenho ódio, porque nela ficarei por pouco tempo, não lhes tenho ódio porque Ela me deu seu por-do-Sol. Minha quase-simpatia é fruto de um exercício constante de esforço e determinação de querer ver nas ruas retas e nas pessoas distantes, uma faísca de alguma coisa que se pareça como minha. Gosto das coisas que me pego imaginando abraçá-las. Conquista é ''inabraçável", é silenciosa e arredia comigo, ela testa todo dia minha resistência à dor, minha resistência à saudade, minha resistência à memória e quando não me reprova é gentil comigo e coloca o tempo do jeito que eu gosto. E nessas vezes, é bom.
Nessas vezes, eu saio e ensaio risos para pessoas estranhas
E o resto eu sei lá ... talvez eu viva bem assim, talvez não. Não tenho pressa em descobrir. Hoje eu só sou feliz.
3 comentários:
E eu, com vinte anos de Conquista, nunca estive nem perto de conseguir expressar tão bem tudo que isso aqui faz a gente sentir. :)
a primeira vez que chegei emn conquista era mais ou menos lá pras 6 e pouca da tarde nunca irei esqueçer aquele por-do-sol esse texto me fez lembrar que a minha situação é parecida acho essa cidade muito charmosa e sei que será apenas temporaria minha estadia.
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