segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O CÉU ACIMA

Quando eu era pequena minha avó tinha um quintal
e meu avô cansou de improvisar um podão com uma vassoura velha
pra catar da copa da árvore
a acerola mais gorda e vermelha que eu pudesse comer sem lavar
pra ver a terra tilintando no meu dente que ainda era de leite
menina,que eu era.
Nessa época, viver era de grande rutilância
E eu cansei de dormir no balanço ,olhando acima de mim, o céu em laranja
e azul
sem saber que o dia ainda existia do outro lado do rio.

Depois de moça eu vi o dia tardar a morrer do outro lado.
E então entendi como se comover é fácil
para quem se dispõe
e deixa a alma a reboque

Depois de moça eu vi o dia tardar a morrer do outro lado.
Depois de moça,
O céu , sobre minha cabeça, dividido em dois.

domingo, 17 de julho de 2011

SONETO DO HOMEM CORDIAL


Tanto há em mim, de amor, que se me calo
É que sabes tu de mim mais do que digo
Do amar demais a ti, virei bandido
Exaurido do meu dar demasiado

E de ver crescer assim,amor falido
O que resta é um estar exasperado
É estéril o meu peito irradiado
Do malgrado que me fora proferido.

Sentir e ser e calar aborrecido
E morrer o pensamento
Em tudo que há de ti,que vejo

É exercitar constantemente a desmemória
É querer calar em mim a anti-glória
Do meu ter amado a ti mais que a mim mesmo.

domingo, 10 de julho de 2011

CASA

É sempre assim:
O cheiro doce de bolo assando na cozinha
A galhofada das vozes conhecidas em risos estridentes
E implicâncias amorosas
O abraço carinhoso de mainha cheirando a lavanda
Reclamando como foi que eu sujei tanta roupa
Reclamando porque eu sempre volto mais magra
Perguntando se eu estou triste,se eu tenho fome
Se eu quero café.

Minha irmã saúda minha chegada com um beijo ligeiro
Ela cheira a iogurte e é muito bonita,
Dizem que se parece com minha mãe.
Eu não sei com quem me pareço
Mas os olhos fundos são de meu pai
Como o lábio fino e torto para a esquerda
Quando falo
Quando rio
Quando não faço nada.

Nosso cão se espalha no sofá, indolente.
E, ou abana o rabinho ao me ver,
Ou me ignora.
Mas eu aperto seu focinho de um jeito ou de outro
Enquanto minha vó me pergunta como foi a viagem
Que eu respondo que "foi boa", sem dar muita trela
Para a demora, para as paradas, para o sacolejo, para o enjôo nas curvas fechadas
Para a vontade de vir sem voltar.


Saudade de casa.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DIALÉTICA

"É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste."


DIALÉTICA,

Vinicius de Moraes.



Em dias chuvosos como esses, penso que Vinícius tem razão.




terça-feira, 12 de abril de 2011

CIDADE GRANDE

Somos um na multidão. Somos sós.Somos só mais um. Nos sentimos especiais. Acordamos pela manhã, pão com manteiga, café. Vamos para o trabalho insatisfeitos. É tudo igual,sempre. Sempre a mesma roupa rôta e a cara amassada. Estudamos sem vontade. Comemos depressa. Comemos muito depressa, comemos em frente a TV com as desgraças do noticiário. Reclamamos da violência. Reclamamos do tempo. Engordamos mais uns quilos,queremos perder. Nos sentimos mal com nossa aparência. Estamos mais velhos. Não ganhamos o suficiente. Não levamos a vida que queríamos,está tudo um pouco fora do lugar. Não temos mais vinte anos. Temos vinte anos, não temos perspectiva. Reclamamos da violência. Reclamamos do tempo. Reclamamos do tédio. Reclamamos do quanto estamos atarefados. Rezamos pelas férias, não queremos os domingos. Rezamos por medo. Não acreditamos em Deus. Falamos constantemente, falamos sem parar. Engolimos o que interessa. Somos previsíveis,somos irritáveis. Queremos ser bons. Vez ou outra, somos. Falamos mal de nossos casamentos. Maldizemos nossa solidão. Somos sós. Somos só mais um. Queremos nos sentir especiais. Conhecemos pessoas novas. Nos apaixonamos. Somos carentes e medrosos. Queremos parecer inteligentes,auto suficientes. Queremos ser magnéticos. Queremos ser gravitacionais. Queremos as pessoas pendulando ao nosso redor,somos egoístas. Somos hedonistas. Rompemos. Sentimos dor. Fingimos esquecer. As vezes, esquecemos mesmo. Conhecemos pessoas novas. Nos apaixonamos. Somos sós. Queremos parecer especiais. Nos trancamos claustrofóbicos em nossos apartamentos, não nos sentimos em casa. Visitamos a casa em que crescemos,não nos sentimos em casa.Nos dias de Sol vamos à praia. Fingimos ser felizes nos dias de Sol. Talvez sejamos. Não estamos preparados pra felicidade. Somos tristes, a vida é pouco pra muitos. Não temos partido. Temos consciência política.Não temos consciência política.Amamos os debates presidenciais. Olhamos antigas fotografias. Somos saudosistas.Não gostamos do nosso passado. Tememos a morte. Tememos muito a morte. Vivemos como se fôssemos pra sempre. Reclamamos das contas de luz. Falamos banalidades. Fazemos amor sem muito jeito. Falamos banalidades. Passamos dias inteiros sem nenhuma palavra. Dizemos "eu te amo" desesperados. Dizemos de cinco em cinco minutos. Ligamos uma vez por dia. É o bastante. Somos sisudos com nossas mães. Sorrimos para estranhos nos sinais.Queremos ir embora sempre. Queremos ter um pouco mais de coragem. Temos vergonha de nossa nudez, de nossos filhos, de nossas casas. Queremos ser magnéticos. Somos normais. Queremos ser especiais. Somos só mais um. E morremos desajeitados. Morremos confusos, no improviso. Morremos sempre menos do que poderíamos ter sido. Morremos ,finalmente, o que sempre fomos: um potinho de medo,merda, mágoa e tédio com chispas de luz e calor e amor e oxigênio.

sexta-feira, 4 de março de 2011

"Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres."

NERUDA, O Poço.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O ESPÍRITO DAS COISAS


Quando eu era menina, aos seis anos, abstraí o sentido da palavra "gato".
Uma tarde inteira pensando na palavra
Fuçando seus cantos, repetindo suas sílabas
Dando-lhes diferentes entonações
Foi suficiente para que ao fim do dia, eu já não mais soubesse o que ela era.
O som, de tão repetido, distanciou-se da imagem
E eu vi a palavra bruta, a palavra seca
A palavra sem o Signo
A palavra apenas quatro letras e dois sons.

Daí que compreender absolutamente uma coisa é, de certa forma, olvidar-se de seu Significado.
É atingir o radical da Coisa, seu axioma
E poder tocá-la nua
Dissociada da realidade em que toma forma e se referencia.

Hoje eu sei que a cisma entre o Nome e o Signo existe para além do nome e atinge a Memória e a Pessoa;
Porque quando eu me arranquei do que era você,
Eu invoquei repetidamente a sua Imagem
E refiz detalhadamente a fotografia do seu Corpo
E revisei exaustivamente a minha memória contingente de teu espaço
de teu movimento,de tua palavra, de teu aceno,de teu suspiro, de teus silêncios
E revivi em êxtase e azedume a Lembrança cuja evocação me consumia.

Mas o desejo é corrosivo como o vício
E de tanto pensar nos teus olhos que avistaram mil outros lugares
E nos teus pés andantes sabidos de outros chãos e épocas
Esgotei Você e seu símbolo.

E sua Boca de poesia e história passou a ser uma boca
E o teu braço de paixão e agonia passou a ser um braço
E as tuas mãos de carinhos e lascívias passaram a ser só mãos.

Te apartei, sem querer, da memória casa e alimento do Amor
E aí te vi puro e simples
E não senti mais nada.
Lhe restringi a um corpo, doca para um passado que já não recordo
Lhe restituí ao lugar comum das coisas simples e desvendadas.

Mas vez ou outra, não sei porque, sinto sua falta.