quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O ESPÍRITO DAS COISAS


Quando eu era menina, aos seis anos, abstraí o sentido da palavra "gato".
Uma tarde inteira pensando na palavra
Fuçando seus cantos, repetindo suas sílabas
Dando-lhes diferentes entonações
Foi suficiente para que ao fim do dia, eu já não mais soubesse o que ela era.
O som, de tão repetido, distanciou-se da imagem
E eu vi a palavra bruta, a palavra seca
A palavra sem o Signo
A palavra apenas quatro letras e dois sons.

Daí que compreender absolutamente uma coisa é, de certa forma, olvidar-se de seu Significado.
É atingir o radical da Coisa, seu axioma
E poder tocá-la nua
Dissociada da realidade em que toma forma e se referencia.

Hoje eu sei que a cisma entre o Nome e o Signo existe para além do nome e atinge a Memória e a Pessoa;
Porque quando eu me arranquei do que era você,
Eu invoquei repetidamente a sua Imagem
E refiz detalhadamente a fotografia do seu Corpo
E revisei exaustivamente a minha memória contingente de teu espaço
de teu movimento,de tua palavra, de teu aceno,de teu suspiro, de teus silêncios
E revivi em êxtase e azedume a Lembrança cuja evocação me consumia.

Mas o desejo é corrosivo como o vício
E de tanto pensar nos teus olhos que avistaram mil outros lugares
E nos teus pés andantes sabidos de outros chãos e épocas
Esgotei Você e seu símbolo.

E sua Boca de poesia e história passou a ser uma boca
E o teu braço de paixão e agonia passou a ser um braço
E as tuas mãos de carinhos e lascívias passaram a ser só mãos.

Te apartei, sem querer, da memória casa e alimento do Amor
E aí te vi puro e simples
E não senti mais nada.
Lhe restringi a um corpo, doca para um passado que já não recordo
Lhe restituí ao lugar comum das coisas simples e desvendadas.

Mas vez ou outra, não sei porque, sinto sua falta.