terça-feira, 12 de abril de 2011

CIDADE GRANDE

Somos um na multidão. Somos sós.Somos só mais um. Nos sentimos especiais. Acordamos pela manhã, pão com manteiga, café. Vamos para o trabalho insatisfeitos. É tudo igual,sempre. Sempre a mesma roupa rôta e a cara amassada. Estudamos sem vontade. Comemos depressa. Comemos muito depressa, comemos em frente a TV com as desgraças do noticiário. Reclamamos da violência. Reclamamos do tempo. Engordamos mais uns quilos,queremos perder. Nos sentimos mal com nossa aparência. Estamos mais velhos. Não ganhamos o suficiente. Não levamos a vida que queríamos,está tudo um pouco fora do lugar. Não temos mais vinte anos. Temos vinte anos, não temos perspectiva. Reclamamos da violência. Reclamamos do tempo. Reclamamos do tédio. Reclamamos do quanto estamos atarefados. Rezamos pelas férias, não queremos os domingos. Rezamos por medo. Não acreditamos em Deus. Falamos constantemente, falamos sem parar. Engolimos o que interessa. Somos previsíveis,somos irritáveis. Queremos ser bons. Vez ou outra, somos. Falamos mal de nossos casamentos. Maldizemos nossa solidão. Somos sós. Somos só mais um. Queremos nos sentir especiais. Conhecemos pessoas novas. Nos apaixonamos. Somos carentes e medrosos. Queremos parecer inteligentes,auto suficientes. Queremos ser magnéticos. Queremos ser gravitacionais. Queremos as pessoas pendulando ao nosso redor,somos egoístas. Somos hedonistas. Rompemos. Sentimos dor. Fingimos esquecer. As vezes, esquecemos mesmo. Conhecemos pessoas novas. Nos apaixonamos. Somos sós. Queremos parecer especiais. Nos trancamos claustrofóbicos em nossos apartamentos, não nos sentimos em casa. Visitamos a casa em que crescemos,não nos sentimos em casa.Nos dias de Sol vamos à praia. Fingimos ser felizes nos dias de Sol. Talvez sejamos. Não estamos preparados pra felicidade. Somos tristes, a vida é pouco pra muitos. Não temos partido. Temos consciência política.Não temos consciência política.Amamos os debates presidenciais. Olhamos antigas fotografias. Somos saudosistas.Não gostamos do nosso passado. Tememos a morte. Tememos muito a morte. Vivemos como se fôssemos pra sempre. Reclamamos das contas de luz. Falamos banalidades. Fazemos amor sem muito jeito. Falamos banalidades. Passamos dias inteiros sem nenhuma palavra. Dizemos "eu te amo" desesperados. Dizemos de cinco em cinco minutos. Ligamos uma vez por dia. É o bastante. Somos sisudos com nossas mães. Sorrimos para estranhos nos sinais.Queremos ir embora sempre. Queremos ter um pouco mais de coragem. Temos vergonha de nossa nudez, de nossos filhos, de nossas casas. Queremos ser magnéticos. Somos normais. Queremos ser especiais. Somos só mais um. E morremos desajeitados. Morremos confusos, no improviso. Morremos sempre menos do que poderíamos ter sido. Morremos ,finalmente, o que sempre fomos: um potinho de medo,merda, mágoa e tédio com chispas de luz e calor e amor e oxigênio.