domingo, 17 de julho de 2011

SONETO DO HOMEM CORDIAL


Tanto há em mim, de amor, que se me calo
É que sabes tu de mim mais do que digo
Do amar demais a ti, virei bandido
Exaurido do meu dar demasiado

E de ver crescer assim,amor falido
O que resta é um estar exasperado
É estéril o meu peito irradiado
Do malgrado que me fora proferido.

Sentir e ser e calar aborrecido
E morrer o pensamento
Em tudo que há de ti,que vejo

É exercitar constantemente a desmemória
É querer calar em mim a anti-glória
Do meu ter amado a ti mais que a mim mesmo.

domingo, 10 de julho de 2011

CASA

É sempre assim:
O cheiro doce de bolo assando na cozinha
A galhofada das vozes conhecidas em risos estridentes
E implicâncias amorosas
O abraço carinhoso de mainha cheirando a lavanda
Reclamando como foi que eu sujei tanta roupa
Reclamando porque eu sempre volto mais magra
Perguntando se eu estou triste,se eu tenho fome
Se eu quero café.

Minha irmã saúda minha chegada com um beijo ligeiro
Ela cheira a iogurte e é muito bonita,
Dizem que se parece com minha mãe.
Eu não sei com quem me pareço
Mas os olhos fundos são de meu pai
Como o lábio fino e torto para a esquerda
Quando falo
Quando rio
Quando não faço nada.

Nosso cão se espalha no sofá, indolente.
E, ou abana o rabinho ao me ver,
Ou me ignora.
Mas eu aperto seu focinho de um jeito ou de outro
Enquanto minha vó me pergunta como foi a viagem
Que eu respondo que "foi boa", sem dar muita trela
Para a demora, para as paradas, para o sacolejo, para o enjôo nas curvas fechadas
Para a vontade de vir sem voltar.


Saudade de casa.