Da janela estreita do meu quarto, eu vejo o Cristo da cidade
Iluminado, esguio e longe.
Eu morei em três diferentes lugares, e das três diferentes
janelas
Eu o via.
Durante um bom tempo, fita-lo a brilhar no escuro, tão
distante
Fora o passatempo solitário
Que meu espírito, cansado de saudade, arfando por uma
presença que nunca se compunha
Tivera.
O peito magro e nu, exposto ao frio , à bruma e à névoa
daquela figura escura,
Quase indefinível à distância, quase indistinguível pela
vista
Me confortava;
Porque a sua imagem tísica e tênue,
A sua imagem que era quase uma ferida aberta sob o céu da
cidade
Era o retrato de um desamparo muito maior do que o que eu
sentia.
As pessoas passavam por mim como os automóveis numa via
Nada me tocava, nada me prendia, nada se aderia em mim,
Em meu gesto, em
minha palavra, em meus planos
Nada me pungia, ou me atiçava
Nada se comunicava comigo, com o que eu era, com o que eu
queria.
Isso passou.
E hoje os dias são claros e as noites são tempo de Paixão
e Glória.
Porque desde que existes em mim
O espaço ao meu redor me tomou e me engoliu
Me enfeitou e me emprenhou de sentido e de alegria
E agora eu vejo o que antes não via
E sou movida e sou tocada e pertencida
Por uma realidade antes à mim tão alheia, que hoje me abraça
e me goza
Hoje, dentro e sobre mim pulsante e viva
Na memória pura do céu vermelho em que te beijei junto à lagoa.
Por isso vem até mim
E permita que eu te olhe e te sinta amor
Até que eu canse de fitar as fagulhas de paixão e mistério
de sua íris amarela e grandiosa
Até que eu canse de admirar a tua presença cara,clara, Sol
de meio dia
Até que eu enxergue dentro de ti e, através de ti, o meu
rosto
Apaixonado.
Vem até mim,
Que não se confia no porvir,
Que eu posso ter meu corpo habitado por ti,
Que, te amando, eu
posso ter de ir no próximo instante.
E o que ficaria, a escrita torta e bonita do amor e do ciúme
Numa fina cicatriz, em fina flor e ferida
Antônio, meu amigo,
Luz de minha vida,
Deita no braço de minha poesia.